sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Anencefalia


Deu vontade de falar disso. Algo que me faz pensar muito... Reflexões profundas sobre a vida e tal.

Mas acho que nem é preciso falar muito... Basta indicar:

www.anencefalia.com.br

Anencefalia - info

E meu último post sobre isso lá no VPV.

Dá uma olhada. Acredite: vale a pena...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Olhando pro próprio umbigo

Pois é, sumido mais uma vez... Questões de marketing... :(

Mas gosto de pensar que isso aqui existe, um espaço onde posso botar o que eu quiser... A liberdade é uma bênção, né??

Vai então uma colagem (não é plágio, viu Google? Estou citando a fonte!) de algo que achei bastante interesssante, de um cara que teve coragem de mostrar a hipocrisia de quem usa Deus, ou qualquer outra coisa, para justificar as falhas da sociedade...



UMA ORAÇÃO IMPACTANTE


Interessante oração feita em Kansas na sessão de abertura do Senado deles. Parece que oração ainda chateia algumas pessoas. Quando pediram para o ministro Joe Wright abrir a nova sessão do Senado de Kansas, todos estavam esperando o tradicional discurso, mas isso foi o que eles ouviram:

“Pai celeste, nós estamos diante de Ti hoje para pedir Teu perdão e para buscar. Tua direção e liderança.
Nós sabemos que Tua palavra diz, ‘Cuidado com aqueles que chamam o mal de bem,’ mas isto é exatamente o que temos feito.

Nós perdemos nosso equilíbrio espiritual e revertemos nossos valores.

Nós exploramos os pobres e chamamos isso de loteria.

Nós recompensamos preguiça e chamamos isso de bem-estar.

Nós cometemos aborto e chamamos isso de escolha.
Nós matamos os que são a favor do aborto e chamamos de justificável.

Nós negligenciamos a disciplina de nossos filhos e chamamos isso de construção de auto-estima.

Nós abusamos do poder e chamamos isso de política.

Nós invejamos as coisas dos outros e chamamos isso de ambição.

Nós poluímos o ar com coisas profanas e pornografia e chamamos isso de liberdade de expressão.

Nós ridicularizamos os valores dos nossos antepassados e chamamos isso de iluminismo.
Sonda-nos, oh, Deus, e conhece os nossos corações hoje; nos limpa de todo pecado e nos liberta.
Amém!"

A resposta foi imediata. Um número de legisladores saíram durante a oração em forma de protesto. Em 6 semanas, a igreja chamada Central Christian Church, onde o Rev. Wright é pastor, recebeu mais que 5.000 ligações e somente 47 foram negativas. A igreja agora está recebendo pedidos internacionais de cópias desta oração, como a Índia, África e Korea.

O comentarista Paul Harvey colocou essa oração no ar no seu programa de rádio ‘O Resto da História’, e recebeu o maior índice de ouvintes que o seu programa já teve.

Com a ajuda do Senhor, deixe essa oração ir para todo o canto da nossa nação. Para que essa oração, novamente, de todo o nosso coração volte a ser nosso desejo, para que possamos de novo ser chamados uma nação dirigida por Deus.

Se você não lutar por algo, você será enganado em tudo.

Se esquecermos que somos uma nação dirigida por Deus, então seremos uma nação destruída.

“E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra” (2 Crônicas 7.14).


sábado, 25 de julho de 2009

A coxa do frango

Enquanto vou acordando aos poucos, ouço a conversa lá na sala. Minha tia:

“…e eu sempre me perguntava quando é que eu ia comer a coxa do frango…”

Ela cresceu numa geração em que os mais velhos eram super-respeitados, criança não tinha vez. A elas restava o peito, a asa, o pé do frango… E, depois, foi vendo florescer uma época em que os filhos passaram a tomar conta da casa, e exigem a coxa com unhas e berros.

Felizmente hoje não é preciso mais tantas divisões, já vendem frango congelado em pedaços, pra uma distribuição de riquezas mais igualitária entre as “classes” familiares (hoje quem não tem vez é o frango, coitado, criado de forma cada vez mais desumana – ou “desfranguínea”, sei lá…). Mas, naqueles casos em que não há indústria alimentícia que dê jeito, alguns filhos literalmente matam os pais – e quem mais estiver pela frente – para conseguirem o que querem…

Isso me faz lembrar uma constatação de vários estudiosos do nosso tempo – inclusive dos psicanalistas, que em outra época tanto foram citados como responsáveis pela “liberalização” de tudo… Querendo ou não, a imagem de Freud sempre foi uma espécie de Che Guevara das rebeliões de costumes. Contra todas as repressões psicológicas, havia sempre quem citasse um “Freud diz”… “Freud explica”… Abaixo o machismo, a repressão sexual, a forma autoritária de criar os filhos… Abaixo tudo, acima a liberdade!

E foram mudanças importantes, não há como negar… mas quem realmente leva Freud e tantos outros estudiosos a sério sabe que hoje o problema é outro. Muitas revoluções, Pílulas e Conselhos Tutelares depois, a questão que mais tira o sono de quem estuda e cuida de pessoas e da sociedade em geral, embora ainda haja muito a ser “desreprimido”, é exatamente a falta de limites. Pulamos de um mundo altamente repressor, o do pé do frango, para um em que a coxa não é mais o resultado de uma conquista, mas uma exigência inegociável, doa a quem doer. Ninguém passou pelas lutas e pelo idealismo de outrora para chegar às conquistas, não vivenciamos as dificuldades, nem conhecemos a fundo o valor simbólico que uma simples coxinha tem. Mas já nascemos comendo coxa, então ai de quem nos vier com moela…

Esquecemos, no entanto, que nem sempre a falta de coxa é repressão. Ás vezes é só um limite, algo não só natural, mas também necessário para nós, reles humanos. Somos delimitados por natureza, sempre há uma criptonita a nos lembrar que até a maior das forças tem seu limite. A busca por descobri-lo, é claro, pode ser infinita, e isso é a vida: sempre desconfiar do dito “impossível”… Mas há um limite que somos nós mesmos que devemos demarcar: a fronteira do território alheio.

Enquanto não entendermos isso e nos esforçarmos por ensinar aos nossos filhos (para que não se tornem os roubadores de coxinhas de amanhã), vamos cansar de ouvir educadores, psicanalistas, psicólogos, sociólogos e esses “milionários” dos livros de auto-ajuda sempre baterem na mesma tecla: nossa sociedade carece de limites. Há tempos o problema já não está tanto no freio, mas no acelerador. Correr é bom, mas é preciso lembrar que a estrada não foi feita só pra gente. Tem mais gente no caminho.

Muito mais…

sábado, 4 de julho de 2009

Twittando!...


Sempre preferi os subwoofers, aquelas caixas com poderosos auto-falantes grandes a vibrar com os sons mais graves, mais envolventes. Neste mundo de fones-de-ouvido e sons de celulares e notebooks em que estou, não sabe a falta que sinto de ouvir o baixo e o bumbo em cada música... Sem falar nos sons mais arrepiantes das trilhas sonoras dos filmes!

Mas sei também reconhecer a importância dos tweeters, aqueles auto-falantezinhos que geralmente ficam mais em cima na porta do carro, e quase ninguém nota. Sem eles, os sons agudos não seriam os mesmos. Não têm a profundidade dos subwoofers, mas dão a sua pitadinha no som da vida...

Em resumo: aderi ao Twitter. Sim, agora também tô nessa nova onda de micro-blog. O que não quer dizer, obviamente, que vá diminuir meu carinho por isto aqui; pelo contrário, este blog continuará sendo sempre meu subwoofer preferido. Meu refúgio pessoal...

A propósito: se você gosta desse espaço, te convido a me seguir lá no twitter também. É muito gostoso pra trocarmos idéias rápidas!...


PS: Pois é, tô cada vez mais rato de internet. Humanando, Vivo Pela Vida e Twitter. Vai gostar de blogar assim lá na...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O caro e o banal

_ Padre! Por favor!
A voz ressoou pela igreja, acompanhada do barulho dos sapatos no piso antigo; uma velhinha ajoelhada no primeiro banco franziu a testa.
_ Padre?!
A velhinha olhou para trás, já com um olhar meio azedo. Quem ousava falar alto dentro da igreja, ainda por cima atrapalhando sua reza?
_ Me desculpe, eu queria falar com o padre.
O homem não devia passar dos trinta, apesar da cara de quem parece não se cansar de estar sempre cansado. Terno sem paletó, pasta de executivo, gotas de suor na testa: roupa de trabalho.
_ Psit! Num tá vendo que ele tá atendendo confissão?
O homem olhou de novo para o padre sentado ao lado do altar, e só então reparou que ele estava a conversar intimamente com um senhor negro trajando uma roupa de operário, suja de pó. Não se parecia com as confissões que ele via na TV.
_ Ué... mas ele não usa o confessionário não?...
A velhinha riu:
_ Ih, meu filho... faiz tempo que ninguém usa aquele negócio lá... Aquilo é da minha época. A gente ficava tudo ajuelhado do lado de fora, nem via a cara do padre... Agora os tempos mudaram, esses padre muderno diz que gosta de sentá do lado da gente... hehehe...
_ Hum, sei...
_ O sinhô qué falá com o padre Lucas?
_ Hum... sim! Quero dizer.... queria conversar com um padre, pode ser ele.
_ Ah, tá... Também vai aporveitá o horário de armoço pra confessá, né?
_ Não! Quer dizer... só queria ter uma conversa com ele...
_ Sei. Faiz o siguinte, meu filho: pega esse terço aí e me faiz companhia na reza um bucadim... Só falta dois mistério.
_ Falta o quê?
_ Dois mistério glorioso. Ih, já vi que faiz tempo que ocê num reza o terço, heim? Sua vó num te ensinô não? Hihihi...
_ Mas...
_ Senta aqui, fio. Óia, ocê vai tê que isperá memo... e ainda tem mais dois na fila pra confessá, óia lá.
O homem nem olhou pra fila, estava vendo que não valeria a pena, ia desistir, tinha mais o que fazer. Tentou ser simpático enquanto virava as costas:
_ Não, obrigado, não estou com tempo. Eu volto outra hora...
_ Tá bão... – a velhinha deu de ombros. Mais se ocê num tem tempo pra Deus, dispois num vai querê que ele tenha tempo procê, viu?...
E voltou a rezar.
O homem parou. Que velhinha atrevida, que vontade de mandá-la pra... “Bem feito pra mim, onde fui me enfiar!”, pensou.
Olhou para cima. Da parede acima do coro uma mulher penetrava-lhe o fundo dos olhos, num misto de piedade e repreensão – seria Michelangelo?...
Suspirou. “Ok, ok... Não tenho nada a perder, mesmo...” Deu meia-volta e sentou-se no banco atrás da velhinha. Desligou o celular e, sem perceber, se viu repetindo as orações que ela ditava, baixinho...
E, em meio àquelas rezas da época de infância, uma sensação estranha foi de novo tomando conta do seu ser. Aqueles pensamentos voltavam, vinham como que fantasmas. O suor voltava frio na testa, nas mãos, nos pés. O tremor era inevitável, a pressão abaixava, começava a ficar tonto. Aquelas imagens assolando sua mente naquela cobrança por algo que ele não sabia ao certo o que era, o coração disparando, a ansiedade exigindo uma ação imediata, tinha que se levantar, ir embora dali!
_ Vai lá que tá na hora!
_ Heim?
_ A Dona Rosa já cabô de confessá, é a sua veiz, fio!
Despertou de repente, olhou para o padre, que o esperava. Quanto tempo tinha ficado ali? Ergueu-se meio cambaleante, e se dirigiu à cadeira de confissão. Não saberia descrever o que se passava em sua cabeça neste momento. Talvez não se passasse nada...
_ Bom dia, seu padre.
Era um padre jovem, aparentava ter somente um pouco mais que a sua idade.
_ Bom dia...
_ Olha só, eu não queria bem “me confessar”, não... Eu queria mais é ter uma conversa... tirar uma dúvida, sabe?
_ Hum, deixe-me ver... – o padre lançou um olhar pro móvel antigo encostado na parede, constituído na parte inferior por pêndulos e na superior pelo corpo do relógio (como poderia funcionar tão bem, sendo tão antigo?). Tudo bem... já acabou o horário de confissão, não tem mais ninguém na fila, e estou com o tempo livre até as duas horas.
O homem sorriu.
_ Nem precisa tanto, seu padre, não quero tomar o seu tempo... Ainda é meio-dia e meia, vai ser só uma conversinha rápida... e eu também não estou com tanto tempo assim, sabe...
_ Hum-hum – consentiu o padre.
Um segundo de silêncio. Ambos sabiam, no fundo, que não iria ser só uma “conversinha”. O homem, por tudo o que carregava consigo; o padre, pelo que via nos olhos do outro.
_ Então vamos lá, seu padre... é que... – tinha que afastar aquelas sensações, agora não! – Bem, eu gosto de ir direto ao assunto, não sou alguém que gosta de rodeios, sabe?... Mas é que...
Sorriu de novo. Estava visivelmente confuso.
_ Seu padre, eu não sei por onde começar...
O padre olhou para aquele homem, a cabeça abaixada após não conseguir manter o sorriso. Tentou passar um silêncio acolhedor, lembrou-se subitamente do significado de seu título: “padre”, pai.
_ Bem, é que...
Pausa. Os lábios tremendo, as mãos suando frio, inquietas, a esfregar-se nervosamente uma na outra. Suspiro profundo.
_ Padre, eu furei uma fila.
O padre continuou em silêncio, com a mesma expressão de quem medita profundamente sobre o que ouve. No fundo seria até interessante presenciar tamanho arrependimento por algo aparentemente tão banal, mas estava claro que não era só isso o que inquietava aquele homem...
O sujeito levantou a cabeça, e sorriu novamente.
_ O senhor deve estar achando estranho fazer tanto estardalhaço por causa disso, né?
Foi a vez do padre sorrir.
_ Nem tanto...
_ Como?...
_ O pecado não está no ato em si, mas no coração de quem o pratica.
_ ...
_ Pode chegar alguém aqui e dizer até que fez muita caridade, deu uma fortuna para os pobres. Mas dependendo da intenção que está no coração daquela pessoa, aquilo pode ser um pecado. E olha, tem muita gente pecando dessa forma por aí...
_ Ah, tá... Quer dizer que não existe mais aquele negócio de pecado leve e pecado grave, pecadão e pecadinho... é tudo subjetivo, né?...
O padre ficou mais sério.
_ A pergunta é...
Aquelas pausas do padre aumentavam ou diminuíam o nervosismo?
_ ... será que há algum “pecadão”... aí dentro? – e apontou o dedo para o peito do outro, sem perder a serenidade.
O homem estremeceu. Aquele padre estava incisivo demais.
_ Eu... – suspirou de novo. Eu não sei, padre. Sinceramente, eu não sei...
Abaixou a cabeça, os olhos começando a se lubrificarem. O silêncio durou um pouco mais, dessa vez.
_ A fila que eu furei. Era na rodoviária, pra comprar uma passagem de ônibus. O guichê estava lotado, eu estava com pressa, e não podia perder aquele ônibus, já estavam acabando as passagens... Na confusão, percebi uma moça que estava reclamando com outra mulher, ela estava meio afastada da fila, aproveitei sua distração e passei na frente sem que ela percebesse. Tive sorte, acabei comprando a última passagem daquele horário, a moça teve que ficar com o próximo ônibus. Vi que ela ficou um pouco chateada, mas ora bolas, eu tinha uma reunião importante, não podia me atrasar. E fui viajar despreocupado. Tive uma viagem tranqüila, uma reunião ótima, e voltei para casa na manhã seguinte.
Ergueu a cabeça, a voz pesada. O olhar fixo, já cheio d’água, quase transbordante:
_ No outro dia vi a notícia no jornal: o ônibus em que ela estava capotou. Aquela moça, padre, está neste momento num hospital. Entre a vida e a morte.
E uma lágrima teimosa conseguiu, enfim, molhar o piso centenário.


PS: O que é isso? Bem, digamos que certo dia (já faz um bom tempo) acordei com vontade de escrever uma história, mas por enquanto só tinha idéia de uma cena, que é essa aí. Sem saber como continuar. Talvez um dia, quem sabe, vire um livro ou algo do gênero, se alguém mais achar interessante e me ajudar a lapidar... Por que não? rs. Ou talvez continue sendo só um passatempo mesmo, uma brincadeira de "continue a história" que faço de vez em quando, cada vez escrevendo um capítulo.

Seja o que for, é legal. Boa fim de semana!...

sábado, 2 de maio de 2009

Credo espontâneo na madrugada

Sou cristão, acima de tudo. Ou melhor, quero ser. Ser “cristão”, a meu ver, não é só o pertencimento a uma religião, mas sobretudo uma atitude. Não existem mandamentos exatos capazes de definir o cristão. É preciso amar, e não há como medir amor. Só Deus o sabe.

Sou católico por identidade (“tá no sangue”), e sobretudo por esta ser minha comunidade universal. Na Igreja Católica me sinto em comunidade. Em qualquer canto do mundo.

Concordo com muitas críticas do protestantismo tradicional à Igreja Católica. Talvez com a maioria delas. Mas não concordo com as soluções encontradas para suprir as faltas que as coisas do catolicismo os faz. Muito menos com a insistência em perpetuar as críticas. Viver criticando enche. Ainda mais sem conhecer o objeto da crítica.

Acho que eu não conseguiria ser católico antes do Concílio Vaticano II. É difícil saber, na verdade, até mesmo como eu seria se tivesse vivido naquela época (será que ainda seria “eu”?), mas pelo que visualizo seria realmente difícil. Por outro lado, naquela época também deveria ser bastante difícil não ser católico.

Se sou verdadeiramente católico, é pelo caráter mais “materno” do que “doutrinador” que a Igreja tem. Ao contrário do que possa parecer, a Igreja Católica é extremamente acolhedora. Talvez não oficialmente, mas na prática todo mundo se sente católico. Eu não sou um reles “todo mundo”, mas não concordo com uma ou outra doutrina, e nunca fui cobrado por isso, quase ninguém sabe disso – e eu raramente tenho necessidade de revelar isso. Quando se trabalha de verdade na Igreja, às vezes nem se lembra dessas coisas. Vez ou outra entro em discussão com algum chato de plantão, mas em geral chego à conclusão que esse sujeito é menos católico que eu. Menos inclusivo. Divisão é coisa de protestante radical.

Excomunhão? Um “mal necessário” (embora eu odeie essa expressão). Há coisas que não há como conciliar. E infelizmente tem gente que se faz de bobo pra aparecer, aproveitar o prestígio da Igreja, como se essa “abertura” fosse ilimitada. Tem coisa que não dá, é ponto básico na doutrina. Católicos a favor do aborto por simples “direito de escolha”? É igual pentecostais pelo direito à macumba. Mulçumanos pelo direito ao monoteísmo. Marxistas pelo direito ao neo-liberalismo. Tem que excomungar. Só pra marcar território. Não é excluir, é demarcar quem já se excluiu por livre e espontânea vontade. Se quiser que funde outra igreja.

Excomungado vai pro inferno? Uma vez ouvi de um bispo que nem a Igreja sabe quem vai pro inferno. Nunca se pronunciou com certeza disso. Ninguém sabe até onde vai a misericórdia de Deus, é idiotice querer medir algo só pelo que se viu da vida do sujeito nesta terra. Pro céu? Talvez! Tem gente que tem tudo pra ir pro céu, você olha e fala: poxa, acho que fulano já vive no céu. Mas não vive não. Por melhor que seja isto daqui pra alguns, é só a Terra. Nunca vai ser bom de tudo. Ninguém nunca disse que seria fácil. Engano seu de um dia ter pensado que já foi fácil pra alguém, por mais feliz que esse alguém pareça ser (ou realmente seja). Nunca.

Excomungado pode receber sacramentos? Jesus não negou comunhão a Judas, mesmo sabendo muito bem o que ele estava pensando quando comeu daquele pão. Paulo diz que quem consome o corpo de Cristo em atitude de pecado, ingere a própria condenação. Ora, quem sou eu pra fazer com quem alguém não se condene? Quem sou eu pra julgar quem vai se condenar ou não, quando a princípio está querendo receber algo bom? Só consigo me lembrar que Jesus veio para os pecadores. Com toda a sinceridade de coração, e por mais que entenda e respeite profundamente os motivos da Igreja. Mas tem coisa que simplesmente não entra na cachola, estaria sendo falso se dissesse que concordo. Não dá.

Acho que não devemos cair na tentação de aprisionar Deus. Ele é maior que a forma “física” que toma, de pão e vinho. Ninguém atinge Deus, o enfraquece fazendo magia negra com comunhão. Só deixa Ele triste. Não é a Igreja quem é dona de Deus, é o contrário. Se Ele quer se fazer presente da forma que for, Ele se faz. Ele quis precisar da gente pra repartir o seu corpo e perdoar os pecados; mas nunca delegou funções para fazermos independente da Sua vontade.

Mas acima de tudo, a Igreja Católica é MÃE. Só entende quem passa sob as suas asas, sente um pouquinho do calor aconchegante, qual um pintinho. Mãe é mãe, você ama e ponto. Pode discordar, brigar, odiar. Mas ama. E nada te deixa mais triste que ouvir alguém de fora falando mal dela de qualquer jeito. Você não sabe como parte o coração. Mãe é mãe. E exige respeito.

O papa outro dia desabafou, coberto de razão, que hoje em dia parece que a Igreja é o depositário das críticas gratuitas da humanidade. O sujeito é um doutor respeitadíssimo, não faz um comentário sem estar muito bem embasado. Mas de repente faz um sorriso maroto, ou uma expressão raivosa, e solta que a Igreja é a culpada da AIDS e da gravidez indesejada. Só pra constar: nunca vi ninguém que deixasse de usar anticoncepcional por causa da Igreja. Só gente que deixou de fazer sexo.

Esquecem de consultar estudos científicos pra atacar a Igreja de anti-científica. Células-tronco? A Igreja é contra então sou a favor. Nem importa se são embrionárias ou não, o lance é ter um lado espiritual independente de religiões. Pego o que for bom pra mim de cada uma. Não preciso de ninguém pra me ensinar o certo e o errado. Eu também. Já nasci sabendo.

Gosto de Gálatas! A lei (as normas) é um pedagogo: serve para educar, até que estejamos prontos para saber, pela graça de Deus, o que é certo e errado em nosso coração. Quando estaremos prontos? Nunca. É preciso estar sempre na graça. Por nós mesmos, nunca seremos capazes. Romanos 7 (se não me engano): por mim mesmo, o preceito “não peque” acaba virando uma lembrança que o pecado existe, algo para atiçar minha mente a ele. Não pense num elefante cor-de-rosa. Nem na mulher do próximo. Só pela graça. Só pela força que temos quando estamos com Deus. Sai pra lá, ateu. Você nunca vai entender isso (quem lê até pensa que eu não acredito em conversão... uaehauaheuah...). Parece discurso pronto, mas não é não: estar com Deus, sentir ele falando no coração (tum-tum), é que nem ser o Escolhido da Matrix: como saber se está apaixonado. Não há como explicar; ou você sabe ou não sabe. Ou tá ou não tá.

Romanos 14, 14: “Pelo ensinamento do Senhor, eu sei e estou profundamente convencido disto: nada é impuro em si, mas o é para quem o tem como tal”. Não, eu não sou crente. Pelo menos no sentido mais usual da palavra. Nada contra. Mas esse versículo eu decorei, não por decorar, mas por ficar gravado naturalmente, mesmo. Esse tal de Paulo era ousado. Hoje correria o risco de ser excomungado? Com certeza seria expulso de várias igrejas!... Bolão: em qual ele ficaria?

“Nada é impuro em si.” É o cúmulo da subjetividade. Bem, convenhamos que Paulo, assim como Jesus (ou talvez seus tradutores, sei lá) não eram muito ligados a palavras certeiras e expressões fechadas. Jesus um dia diz: “quem não está comigo está contra mim”, e no outro diz: “quem não está contra mim está comigo”. No mesmo evangelho. Ora, decida-se! Não ele: você. Decida-se por entender em vez de se apegar a frases soltas. Vá estudar, contextualizar. E sobretudo procurar entender com o coração, como dizia a raposa (ou foi a Rosa?) do Pequeno Príncipe.

Aliás, Jesus morreu por conta das palavras. Falou demais, e não tava muito a fim de formulações doutrinárias enxutinhas pra ninguém botar defeito. Teologia ele deixava pra conversar com os apóstolos. Com o povão o lance era palavras de efeito. Bem-aventurados os pobres! Meus Deus, que revolução que isso é. Não foi: é. Até hoje poucos entendem isso direito, uns acham que os pobres são felizes porque vão ficar ricos se pagar o dízimo, outros acham que a felicidade dos pobres (e dos funcionários públicos) está em fazer greves contra os ricos. Não por necessidade, mas por identidade, mesmo. Preciso de um protesto pra dizer que sou gente.

Protestar é dizer que a felicidade está acima disso tudo. Desse sistema imbecil, dessa ganância idiota, e dessa mania de ficar pondo adjetivos feios nessas coisas. Esse mundo é uma bomba. Diz a Dercy que palavrão de verdade é gu*rra, f*me, inj*stiça...

Pronto. Coração apertou. Também, quem mandou falar tanto? Tem que ouvir mais, seu!...

Pois é. Chegou a hora de rezar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

E o que é o amor?

_ E o que é o amor?

Ela dizia não saber. Fingia não saber. Na verdade já não mais sabia se o sabia... mas não queria saber. “A ignorância é uma bênção”, dizia um personagem de Matrix. A verdade é cruel, é triste, é sofrida. Não vale a pena.

E ele se vê encurralado, preso, sem chão. Quer amar mas não o deixam, quer viver mas o sufocam. Como amar quem não o quer? Como fazer brotar a flor do amor onde tudo parece infértil?

Mas ele sabe a verdade.

Sabe que ela mente.

Sabe que no fundo da alma o medo de amar é o medo de ser, de sentir, de viver. Chega a pensar em tudo o que fez, no que não fez, no que poderia ter feito. Como se o amor fosse os próprios atos, e não o que os move. Mas não adianta. Não há culpas. Não há culpados.

E ele reza. Reza com todas as suas forças para que a força do amor seja maior que as suas próprias, que não seja ele a sufocá-lo. Que seja maior do que ele.

E ela chora. Chora por sentir que ama, por saber que ama mas não querer saber amar, que se entrega mas não quer se entregar.

Amar sem se desarmar...

Saber sem saborear...

Fugindo da Verdade. Da única Verdade.

Viver sem vivenciar...


Ao som de Tanlan – “É mais”

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Vivo pela Vida


Por que você vive? Pelo quê você vive?

Essas são as perguntas que motivaram a mim e um amigo a criarmos, depois de muita conversa, o projeto "Vivo pela Vida". É um site pequeno por enquanto, mas que não tem idéias tímidas... A proposta é ser um blog "de verdade", com postagens diárias e com boa movimentação.

Para tanto, todos estão convidados a entrar... e participar. Afinal, ninguém vive sozinho.

"Um jeito novo de falar da vida"... Que assim seja!

domingo, 21 de dezembro de 2008

O Natal de José

A garota corria radiante pelas ruas de pedra do pequeno vilarejo; quem a visse passar, nem que fosse por uma fração de segundo, certamente notaria o sorriso encantador que transfigurava-lhe todo o rosto, excedendo os limites dos lábios. Com certeza tinha algo muito bom a fazer, aonde quer que estivesse indo...
Chegou à pequena casa, bateu ansiosa à porta.
_ “Seu” Zé! “Seu” Zé!
José estava nos fundos, cortando pacientemente um duro pedaço de madeira, que parecia nunca ceder. Era daquelas madeiras enjoadas, difíceis de cortar, mas fáceis de lascar. Já lhe tomara boa parte da tarde, mas o pacato Zé não parecia angustiado; pelo contrário, mostrava-se excitado com o desafio de achar a dose certa de força a se aplicar. “Madeiras são como pessoas”, pensava. “Cada uma exige a habilidade certa para se lidar, o equilíbrio correto...”
Mas a notícia que receberia, ao abrir a porta assustado, lhe lembraria alguém capaz de lhe desconcertar por inteiro, fazendo-o se sentir sem habilidade alguma.
_ “Seu” Zé, a Maria chegou!
Imediatamente bateu na roupa para tirar o pó, pegou as sandálias e saiu afoito, andando o mais rápido que podia. A idade o impedia de correr como a pequena mensageira, mas não de sorrir como ela. Os observadores daquelas ruelas agora viam um jovem senhor a ir ansioso pelo caminho inverso ao da menina serelepe, num misto de encantamento e angústia.
Sim, aquele sereno coração de carpinteiro era capaz de se angustiar, como qualquer outro; mas a sensação agora era simplesmente aquela tênue angústia de quem não vê a hora de matar uma doce saudade.
_ Maria chegou! A minha Maria...
Chegou à casa, bateu na porta. Joaquim atendeu, jovial.
_ Ora, ora! Mas a noiva mal chegou e você já vem vê-la, heim? Não vai nem esperar a moça descansar da viagem?.Esse é o meu genro!...
Riu e o abraçou, caloroso. Não havia sogro mais bem-humorado.
_ Vamos entrando! Maria está no quarto com a mãe, arrumando suas coisas. Logo, logo aparece...
José sorriu, enquanto tentava segurar a ansiedade. Esse “logo, logo” poderia ser uma eternidade. Que remédio, teria mesmo que esperar! Mas paciência... pra quem já esperara mais de três meses...
Conversou longamente com Joaquim, até que chegou Ana.
_ Olá, José. Maria está lhe esperando. Ela quer muito falar com você.
Sorriu para os sogros, e foi ao tão aguardado encontro com a pequena noiva.
_ José, meu amado!
Abraçou-a forte, como se nunca mais a fosse largar. O coração disparado, os olhos brilhantes, quase transbordando, a denunciar a saudade contida. Nunca sentira aquilo por ninguém; Maria era capaz de desarmar-lhe, de fazê-lo render-se aos mais profundos sentimentos que lhe tomavam a alma. Com ela, ele tinha os sonhos mais encantadores, cheios de amor, de esperança; com ela, ele tinha fé.
Como sempre, ela estava linda. Aquela beleza encantadora, de quem comunica mais com um olhar do que com mil pergaminhos. “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam”, dizia o Cântico de Salomão. Teria ele conhecido Maria?
_ Ah, José, como senti saudades suas enquanto estava na casa da prima Isabel! Nem pudemos nos despedir quando fui, pois você estava no campo e eu parti às pressas...
_ Sim, sim, eu soube!... Mas não importa, o que importa é que agora está aqui, comigo...
_ Ah, José...
E ria, radiante. Maria transmitia uma alegria serena, mas intensa. Estava, porém, diferente; não parecia mais aquela menina de quem José ficara noivo. O sorriso era o mesmo, mas não era o de sempre. Ela agora sorria como... como uma mulher.
_ Ah, José, quanta coisa linda vivenciei neste tempo... Quanta coisa maravilhosa! Acompanhei os três últimos meses de gravidez de Isabel, ela e Zacarias estão radiantes com o filhinho que Deus lhes deu, o pequeno João!...
_ Gravidez? Mas Isabel não era estéril?
_ Sim! Foi um grandioso presente de Deus, uma dádiva dos céus, José!...
Sorriu. Mas algo lhe dizia que Maria tinha uma coisa importante a lhe dizer. E não estava com cara de ser algo simples.
_ Maria...
_ Sim?
¬_ Sua mãe comentou que queria me contar algo...
Maria ficou séria. Continuava, contudo, serena, como se contemplasse algo.
_ Sente-se...
Sentaram-se. José a olhava fixamente.
_ Sim, José... tenho algo a lhe dizer. Algo muito importante, a transformar tudo... Tudo mesmo.
Silêncio. Mesmo sem perder a serenidade, por um instante os olhos de Maria vacilaram, desviando-se para o chão. Como contar? Como dizer o indizível? Não havia como explicar. Ele teria que sentir na pele, experenciar aquilo tudo.
_ José... me dê a sua mão.
Pegou a mão do noivo, com firmeza. Trouxe-a vagarosamente para junto de seu corpo, até que tocasse seu ventre, por cima do manto. José permaneceu alguns segundos ainda um pouco assustado, com a mão ali, tentando compreender do que se tratava. Notou que a barriga da noiva estava um pouco estufada e, de súbito, percebeu com o olhar que os seios estavam maiores, mais redondos – tirou então a mão num ímpeto, como se tivesse tocado uma chama ardente.
_ Maria!...
Os olhos estavam atônitos, a boca aberta, a mente ainda sem conseguir entender. Maria continuava serena, com um olhar compassivo.
_ Ah, minha amada! – disse, enfim, enquanto a abraçava, lânguido. Como foi acontecer uma coisa dessas? Por Deus, quem foi lhe fazer uma coisa dessas?!
_ José...
Ele a olhava, transtornado.
_ Meu Senhor, quem teve a coragem de lhe fazer isso, minha Maria? Quem foi o homem sem coração que não teve piedade de ti?... Quem é este, que não ama a própria vida?...
_ José...
Parou, e olhou-a profundamente.
_ José, ninguém me fez mal algum.
Então o corpo de José paralisou-se. Entrou em estado de choque, não conseguia mover os olhos esbugalhados, a boca aberta, as mãos caídas ao lado do corpo. Sua face estava branca como de um cadáver, não conseguia sequer elaborar algum pensamento.
Aos poucos, porém, os movimentos foram voltando-lhe, conseguiu enfim balbuciar algo.
_ Maria... você...
Ela continuava séria, olhando-o com compaixão. Não parecia, de forma alguma, estar confessando um grave crime, que poderia custar-lhe a vida.
_ Não, não pode ser verdade. Você não, Maria. Não é possível!
O olhar mariano não mudava.
_ Maria, você seria a última mulher em toda a Terra a fazer isso algum dia. Você ama a vida, Maria. Não seria capaz de fazer algo assim...
Ela conhecia as regras para quem fosse apanhado em adultério.
_ José...
_ Não, minha amada, não é necessário proteger quem lhe fez isto desta forma, nós arrumaremos um jeito! Não é preciso sacrificar-se, nem a esta pobre criança que você carrega dentro de si! Por Deus, não será preciso derramar sangue algum!
_ José, você crê em Deus?
A pergunta o desconcertou. Ele temia profundamente a Deus, e Maria não só o sabia, mas era sua companheira de orações diárias. Por que lhe perguntava isso agora?
_ Maria, sabes que minha vida é toda do nosso Senhor. Do Deus de Abraão, de Jacó e do pai Davi. Sem Ele, sou como o pó da estrada... não sou nada.
_ Então, José, ore. Ore e creia que Deus cuidará de tudo.
Foi para casa ainda meio que em choque, olhando para o longe sem ver nada. Ainda não conseguia entender, enquanto milhares de pensamentos percorriam concomitantemente sua cabeça. Os passos lentos de agora em nada refletiam a ansiedade de quando viera, momentos antes, pelo mesmo caminho. Agora, sim, sentia angústia de verdade.
A tarde já se ia, a noite começava a despontar. O céu limpo ia tomando um azul cada vez mais escuro, enquanto estrelas iam surgindo aqui e a ali. No oeste, um vermelho-alaranjado denunciava que o sol ainda estava por perto, recém-escondido atrás do monte, enquanto a lua ganhava cada vez mais brilho no horizonte oposto. Ainda estava grande e amarela, insistindo em iluminar a escuridão que surgia.
O olhar de José foi se voltando para o céu, e sem perceber começou a contemplar aquela bela cena, que poderia tranqüilamente passar por corriqueira – e que, de certa forma, não deixava de sê-lo. Quando deu por si, estava parado no meio da rua, a olhar para o céu, sem pensar em nada. Por um instante, sentiu paz. Não estava sozinho.
Passou o resto da noite a meditar as escrituras, os preceitos que guardava com afinco na mente e no coração. Pensou nas penalidades aplicadas a cada caso, estupro, adultério, rejeição... A última coisa que queria era denunciar Maria, isso nunca! Morreria por ela, mesmo que tivesse cometido o pior dos pecados. Mesmo que fosse a última das pecadoras, aquela mulher merecia todo o perdão do mundo.
Sim, a lei era necessária, mas... Não seria justo! A lei servia para proteger o povo do pecado, e nisso era boa... mas como salvar a pobre alma que caísse em pecado? Quem salvaria a mulher pecadora, quem salvaria a todos?...
Pensou em abandoná-la em segredo. Fugiria para longe, sem nada dizer; assim pensariam que o filho era seu, e portanto dariam todo o amparo a ela e à criança. Toda a cidade iria amaldiçoá-lo para sempre, mas sabia que Deus seria sua testemunha, e lhe protegeria de qualquer desgraça.
Sim, era o melhor a fazer. Sangue algum seria derramado. Estava resolvido.
Mas... por que ainda algo não lhe parecia estar bem? Por que não sentia firmeza em seu coração?
Preparou-se para dormir. Já deitado, lembrou-se do pedido de Maria para que orasse. Dirigiu-se a Deus, já sem forças, entregando-lhe toda aquela situação. Agora tudo estava em Suas mãos, já não dependia da sua limitada inteligência humana, de simples carpinteiro. Que fosse feita a vontade divina, independente de qual fosse. Recitou alguns salmos, sussurrou profecias. Dormiu rezando.
Passou uma noite um pouco agitada, virando-se várias vezes na cama durante o sono. Até que uma luz fê-lo ir acordando aos poucos. Uma sensação misteriosa, então, foi apoderando-se de sua alma; arrepiou-se, sentindo um misto de temor e fascínio. Abriu os olhos devagar, distinguindo aos poucos uma figura difícil de descrever, só saberia dizer que, por algum motivo, sabia de onde aquela criatura viera. Sentia, naquele momento, que estava envolto ao sagrado.
_ José, filho de Davi!
Sim, era um anjo. Um anjo a falhar-lhe!
_ Não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o povo dos seus pecados.
Ele poria nome no menino!? Então Deus havia lhe escolhido como pai!
_ José, creia que tudo isto aconteceu para se cumprir o que Deus falou por meio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, Deus conosco!”
Sim, a profecia! Então ele fora o escolhido!
_ A profecia! – gritou, levantando-se num ímpeto. O anjo sumira, agora via seu quarto, e a manhã começando a despontar timidamente no céu ainda negro, lá fora.
Saiu correndo, do jeito que estava. Agora sim sentia-se um menino, a percorrer as ruas como um alazão, percorrendo o trajeto mais rápido do que nunca fizera.
_ Maria!!
Nem bateu na porta, foi direto à janela do quarto da noiva, assutando-a.
_ José!
_ Maria, não é preciso dizer nada, minha amada! Agora eu sei, agora eu vejo o que Deus realizou em ti! Eu sabia que seria incapaz de fazer algo assim, tu não tens pecado, minha doce Maria! Pelo contrário, és a mais pura das mulheres!
_ Eu nunca te trairia, meu José...
_ Nem a mim nem a Deus, minha Maria! Eu sempre soube disso. Por isso não conseguia entender... Mas Deus me iluminou a mente, e agora eu compreendo! E como me deixa feliz ver tudo que Ele está realizando em nós! Você alcançou graça diante de Deus, minha amada. Ele te escolheu entre todas as mulheres...
_ Ah, José! Te digo que meu espírito exulta de alegria pelas maravilhas que Deus está realizando! Deus se fez homem, e está aqui dentro de mim... Ele olhou para a nossa humildade, nós que somos simples servos, tão pobres... Veja, José: Ele retira o trono dos poderosos, dos gananciosos, e escolhe os puros e simples!...
_ E nós somos testemunhas disso, minha Maria. Nossa vida será um testemunho vivo das maravilhas que Deus realiza através do seu povo!
E assim foi. Em pouco tempo se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, estavam José e Maria em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas eis que, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:
_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.
_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento...
_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada...
Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer...
Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.
Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.
_ Mas é só por alguns instantes, o garoto está nascendo!
Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.
Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.
Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.
Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.
Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.
Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas canecas d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.
_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!...
_ Bendito seja Deus, mulher! Bendito seja!...
Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.
_ Me desculpem, bichinhos... mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade...
Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.
_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem... Para envolver o pequeno...
Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles de água que pegava com as conchas.
Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair...
De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.
José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.
A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam...).
Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.
Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.
José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.
E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.
Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.
Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.
Bastava um coração de carpinteiro.

Gabriel Resgala – 20.12.08

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Uma crônica

Foi segunda. Estava eu voltando de viagem do Rio, carregando uma mala de rodinha pelas calçadas esburacadas do bairro e uma mochila com um peso considerável nas costas. Foi um daqueles dias cheios, mas por isso mesmo decidi economizar no dinheiro do táxi e pegar um ônibus pra vir da rodoviária pra casa, só teria que andar um pequeno pedaço à pé. Estava animado, cheio de coisas na cabeça. Um misto de entusiasmo e incerteza, saudade do que deixara pra trás lá em terras fluminenses, mas com esperança do que vinha pela frente! Sabia que ainda iria viver muito daquilo tudo que acabara de deslumbrar...

Por isso mesmo, o cansaço, apesar de grande, não me impediu de carregar aquele pequeno peso mais um pouco até em casa. Estava um começo de noite bonito, tranqüilo... o que custava andar um pouco?

Foi quando pude vislumbrar o lado cômico de São Pedro.

Começou com uns pingos, aqui e ali. Procurei marquises - algo bastante improvável num bairro residencial. Correr não podia; andar rápido era o máximo que meu corpo cansado e as rodinhas da mala suportavam. Os pingos rapidamente engrossaram, percebi que o Pedrão tava a fim de curtir uma chuva de verão básica, daquelas “visita de sogra”: surgem do nada, fazem um estrago danado e depois vão embora tranqüilas, como se nada tivesse acontecido. Era preciso pensar rápido.

Procurei uma pequena árvore na calçada, raciocinei que pelo menos por alguns minutos eu ali estaria abrigado. Foi eu me esconder da chuva, que ela foi ficando mais violenta, como se quisesse me pegar de qualquer jeito. Logo, porém, estiou um pouco. Pensei: “é agora, falta pouco pra chegar em casa, acho que se for rápido não me molho muito”. Caí que nem um patinho: ela só estava esperando eu sair pra engrossar de novo.

Corri até a próxima árvore, e a bendita chuva estiou. Então esperei ficar ainda mais fraca, para assegurar, e ameacei enfrentá-la mais uma vez. Juro: foi eu botar o pé pra fora da árvore, e a chuva voltou a engrossar. Juro pela sogra do Pedrão (que, aliás, parecia ser uma boa sogra, gostava de servir as visitas – isto é, quando não estava doente, né)...

Só me restou correr pra baixo da terceira árvore, e esperar. Não havia mais onde me abrigar, e a chuva engrossando, as folhas logo não iriam mais segurar a água... Nisso vieram uns adolescentes correndo pra debaixo da árvore também. Ficaram alguns segundos, viram que não ia adiantar muita coisa, tomaram coragem e saíram correndo e rindo pela rua, debaixo daquele aguaceiro todo. Ah, que inveja. E eu que tinha acabado de rever “Singing in the rain”, na casa da namorada. Se não estivesse com tanta bolsa...

Nisso uma vozinha me chama: “Quer entrar aqui?” Era um garotinho de uns 8 ou 9 anos, na varanda da casa em frente a mim. Como bom mineiro, minha primeira resposta foi automática: “Não, ’brigado, vou ficar aqui mesmo, logo a chuva passa!” Mas logo constatei que a última oração da minha frase era uma inverdade. E acabei cedendo ao convite do menininho simpático, ante sua insistência.

Entrei e fiquei ali na varanda/garagem. Era grande, deviam caber uns três carros ali, mas não havia nenhum. Não ouvi barulho de gente lá dentro. Estaria o menino sozinho em casa?

_ Quer um cafezinho?

_ Não, ’brigado!

_ Quer uma água? Quer entrar?

_ Não, valeu! Eu fico aqui mesmo...

_ Tem certeza?

Imaginei a cena: eu, um rapaz nos seus quase 26 anos, entrando na casa do garoto, pingando água pelo chão, me apresentando pra sua mãe: “Boa noite, seu filho me achou perdido aí fora na chuva. Hum... tem Toddy, ou só café mesmo?”

Nisso lembrei de ligar pro meu irmão. Eu estava só a uma esquina de casa, não custava ele vir me pegar, de guarda-chuva.

_ Não quer nem uma água, não?

_ Não, valeu!

_ Você tá vindo de onde?

_ Do Rio.

_ Do Rio? Poxa, lá é quente, né?

_ É, bem quente.

_ Eu estive lá uns dias atrás... fiquei uns 15 dias lá. Na casa da minha tia Inês. Conhece?

_ Ela mora aqui no bairro?

_ Não, lá no Rio! É uma de cabelo curtinho.

_ Não, não conheço...

Liguei pro meu irmão, enquanto prendia o riso. Que bom, ele estava em casa, já estava vindo!...

_ Quer água?

_ Não, valeu...

_ Um dia ainda quero morar no Rio.

_ Você gosta de lá?

_ Lá é muito bom! É quente, tem praia... é bonito...

Não resisti a provocar o esteriótipo:

_ Mas é violento também, né...

_ Ô! Rapaiz... lá, se você colocar a cabeça na janela e não ouvir tiroteio, você não tá no Rio... Quando eu tava lá, minha tia foi buscar a filha na escola um dia, e aí...

“Que garoto!”, ri por dentro. Será que eu era assim na sua idade? Não, eu era bem mais tímido... Com certeza...

_ ...por que será que as pessoas são tão violentas assim? Por que eles matam, roubam?...

Pronto. Uma pergunta de criança, daquelas que deixam qualquer adulto sem saber o que dizer. Sim, já fiz muitas delas. Mas agora eu sou o adulto. E fico pensando no que sei sobre o assunto... Já fiz vários trabalhos sobre violência quando era bolsista de psicologia social, gosto de ficar filosofando pelos cantos sobre a natureza humana, me metendo a formular conceitos antropológicos, éticos, teológicos. Mas eis que vem uma pergunta simples, feita por alguém a quem deve-se dar uma resposta simples... E aí?

Ele foi mais rápido:

_ Não sei por que... Eles não ganham nada com isso. Só dinheiro.

Taí. Naquela hora entendi por que Jesus botava as crianças no colo e dizia que o Pai revelava-lhes grandes segredos, ocultando-os dos sábios e entendidos...

Meu irmão chegou, com dois guarda-chuvas. O garoto ainda nos ofereceu mais um copo d’água, antes de nos despedirmos:

_ A gente se esbarra por aí!

Fomos embora cantando na chuva, agora um pouco mais fraca. O filho da minha mãe se disse incapaz de conseguir proteger a mala embaixo do guarda-chuva enquanto dava seus passinhos de dança no meio da água (“Poxa, que pena que você tava pertinho, nem deu eu pra me molhar direito!”). O que molhou foram uns certificados de congressos - alguns que nem eram meus -, textos do mestrado, um CD-Rom e um livro de capa bonita que eu tinha acabado de comprar. Ficou tudo com as pontas amassadas, enrugadas por causa da água que entrou no bolso lateral da mala, naquele curto trajeto entre a esquina e a nossa casa. Depois de tanta luta pra não molhar nada, Pedrão finalmente venceu.

Tudo bem. Só pra não dizer que o dia foi perfeito...

Gabriel Resgala
Juiz de Fora, 08.11.08