quarta-feira, 15 de maio de 2013


Nossos avós viram uma guerra mundial. Viram seus amigos, tão jovens, indo matar ou morrer lá num país frio, sem saber ao certo porque tinham de fazer aquilo. E viram tudo acabar com bombas gigantescas que destruíam vidas por atacado, grandes cidades, deixavam seus nefastos rastros por gerações – e com campos de concentração que concentravam o pior que a humanidade já pôde inventar.

Nossos pais viram uma guerra fria. Viram duas mega-potências juntarem tanta pólvora que qualquer fósforo podia explodir o mundo todo, sem exagero. Viram os costumes liberalizarem, mas a repressão virar chumbo. Viram o mundo ir dormir a cada dia como se não houvesse amanhã.

Hoje, nós vemos o terror. Vemos gente morrendo para matar, ao simples troco de espalhar o medo em nome do “Deus” que acreditam. Vemos o dinheiro abundar, e a violência banalizar. Vemos as conexões chegarem ao futuro de ontem, enquanto a fome permanece no hoje de sempre. Vemos tudo acontecer tão rápido que não dá tempo de viver o dia em tão poucas 24 horas. Vemos os valores mudarem num susto, sem saber ao certo se virão outros pra ocupar seu lugar. E ouvimos previsões catastróficas sobre um mundo que pode aquecer, congelar, ou simplesmente evaporar.

Não sou plenamente otimista, pois acho que as mudanças nem sempre vêm para melhor... Mas também não acho sensato sermos pessimistas. Já diziam que tudo ia acabar bem antes do Nostradamus, dos maias ou dos apocalípticos lá da bíblia. Mas sai geração, entra geração, e estamos aí. Cada vez com mais gente no mesmo barco. E, justiça seja feita, ao menos tentando não repetir os mesmos erros.

Melhores ou piores, vivemos de mudanças. Cabe a nós saber o que fazer com elas...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Auto-entrevista sobre o meu livro!



Pois é, gente, enfim lancei um livro - com o sugestivo(?) nome de "Comprei Jujuba!"!! Decidi pegar algumas crônicas, contos e reflexões daqui e do Vivo pela Vida e botar no papel. Simples assim? Pois é, eu achei que seria... até que começou a cair a ficha do que é ter um livro publicado. Bem, pra tentar explicar melhor, vamos a uma auto-entrevista...


Boa noite, Gabriel! Primeiramente, parabéns, viu? Adorei o título, dizem que jujuba faz bem pra pele... Bem, vamos lá... O que te fez lançar um livro?
Olá, boa noite! Obrigado! Bem, primeiramente, para deixar registrado. Há alguns meses, um amigo lançava um questionamento que ficou pululando aqui dentro: “e se nós morrêssemos amanhã, o que deixaríamos?”
Pensei então no que tenho produzido nesses anos, e na repercussão bacana que o que tenho escrito alcançou aqui, na internet. E, no momento simbólico de completar 30 anos de vida, decidi tirar isso só do mundo virtual e imprimir, para poder mostrar aos meus netos (e talvez ensiná-los a ler algo no papel ao invés de e-books ou o que quer que seja moda daqui a 40 anos! ;)

Você é estranho... Não avisou pra ninguém que tava escrevendo um livro!
Porque eu não estava escrevendo o livro! ;) Ele já estava todo escrito aqui, espalhado por esses meus 7 anos de blogs. Eu só fiz um auto-garimpo, formatei no Word, montei uma capinha e botei no site.

E de repente aparece no Facebook divulgando o livro pronto!
Foi surpresa até pra mim... hehe.  A idéia da coletânea estava meio engavetada, aqui na cachola, quando decidi fazer uma surpresa pra minha namorada: publicar meu próprio livro para dá-la de presente de Natal (mais original impossível, fala a verdade! ;) Mas rapaz, quando vi o negócio pronto, bonitinho, disponível pra venda no site... tremi nas bases, não agüentei e saí comentando com alguns amigos. Aí já teve gente querendo comprar, já estraguei a surpresa da namorada e decidi divulgar. Aí pronto. Já era.

E a namorada ficou triste por você ter estragado a surpresa?
Que nada, agora ela tá toda metida dizendo que é minha musa inspiradora, e pode espalhar pras amigas. Me dei bem ;)
Mas sério, ela tá dando o maior apoio pra este projeto (porque agora pelo visto já tá virando um projeto, mesmo sem eu nem ter projetado nada direito)! É a minha maior incentivadora, e sem ela não sei se estaria encarando isso.

Você ainda vai dar o dela de presente?
Sim, vai ser o primeiro exemplar impresso! Na verdade queria, de verdade, ter pelo menos umas 30 cópias pra dar de Natal pra todos que merecem!! Mas, por esse sistema que fiz, tenho que pagar até pela minha própria cópia... O máximo que consigo (assim como qualquer um que comprar no site) é um descontinho ao comprar acima de 10 volumes.

E como funciona esse sistema site de publicações?
A AGbook (www.agbook.com.br), parceira do Clube de Autores, faz impressão 100% sob demanda. Ou seja, o autor é responsável por todas as etapas de edição do livro (se quiser pode solicitar serviços profissionais pagos), e publica a obra no site. Quando alguém se interessa e compra, eles imprimem e entregam. Simples assim.

Legal! E como é o sistema de entregas?
Pra quem mora em São Paulo, há várias opções de Gráficas onde o livro pode ser retirado em até 3 dias úteis após o pagamento, sem nenhum custo adicional. No Rio, Ribeirão Preto e Teresina também tem gráficas conveniadas, pelo mesmo sistema. Em outras cidades, vai pelo correio, com variadas opções de frete e prazo. Geralmente a opção mais barata de frete fica em torno de 6 reais.

Eu quero uma dedicatória! Como faço?
Darei um pulo em Juiz de Fora no próximo dia 22/dez, e pra minha surpresa os amigos já estão querendo organizar uma pequena "noite de autógrafos"... quando tiver mais informações, eu aviso aqui!
Entre o Natal e o Réveillon, estarei em Carangola. E depois ficarei em São Paulo até dia 21 de janeiro, quando voltarei a JF, de férias.

Poxa, então talvez dê até pra ganhar um dinheirinho com isso, né?
Na verdade, a desvantagem da impressão sob demanda é o alto custo. Das vendas on-line, eu só fico com R$1,00 por cada livro e ebook, e só terei direito a recebê-los quando atingir o montante de R$70,00. Meu objetivo é conseguir reverter esse dinheiro em mais exemplares, e aí sim poder ter alguns para brinde...
Ou seja, por enquanto é uma atividade sem fins lucrativos, e ficarei feliz se ao menos ela não me der muitos custos! ;)

Mas você não pensa em, talvez, tentar uma editora comercial, fazer disso uma fonte de renda?
Calma! hehe... Estou, no momento, ainda absorvendo este passo... Mas é claro, quero estar atento aos sinais... Tudo que escrevi ali, fiz primeiro pra mim... e depois vi que dava pra compartilhar com uns amigos, depois com alguns desconhecidos que encontrassem aquilo na internet... e agora vai um pouco mais além, ganha um ar um pouco mais “sério”...
Fico feliz que o que eu faço esteja tocando tanta gente, que não seja só por ser “algo legal que um amigo fez!” Ficarei atento aos comentários de quem leu, observando os sinais, críticas, desafios... Daí pra frente, tá nas mãos de Deus.

Obrigado! Quer deixar agora uma mensagem para os leitores do site?
Gostaria de deixar o meu muito obrigado!! Como sempre gosto de ressaltar aqui, sou um "Gabriel" humano, nunca anjo. Mas se essa humanidade toca alguém, fico extremamente feliz. Continuem me ajudando a tocar outras pessoas! Grande abraço!


Para saber mais sobre o livro e o sistema de vendas, clique aqui!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

"Comprei Jujuba!"



O sorriso se abriu. Um sorriso sereno, de olhos felizes e lábios serrados, como a figura formada pelos caracteres ao final da frase na tela do aparelho: dois pontos, um hífen, fecha parêntese. Sorriso bobo. Bobo como a bala de goma que alguém degustava a tantos quilômetros de distância.

“Meu Deus… o que leva alguém a utilizar um moderno recurso de telecomunicações para avisar que comprou uma simples guloseima, daquelas que se consegue adquirir até 5 unidades por 1 mísero real no mercado negro dos pontos de ônibus??…”

Afrouxei a gravata, lembrei que não precisaria mais dela. Acabara de atender um cliente sério, diretor de uma multinacional, questionando-o sobre o seu estresse de cada dia. Ali, engravatado e de jaleco branco, eu ouvia com seriedade as angústias de quem não sabia mais o que fazer quando o trabalho, tão nobre e bem-feito, tornava-se o único motor da vida. Muitos não pareciam perceber que a família reclamava sua ausência não por não compreenderem a realização de vida que a labuta lhes dava, mas somente por que sentiam a falta da “outra pessoa” que eles eram. Sentiam falta de quando aquele homem, cujas decisões podiam influenciar até mesmo o rumo do país, tirava a gravata e dava um sorriso bobo. Quando virava um marido. Quando virava um pai.

E a danada da ausência não tem mesmo jeito, não quer saber só de “qualidade”: tem que ter “quantidade”, sim senhor! Quando se ama alguém, a saudade se instala no exato instante em que o outro se ausenta, e só vai embora quando ele se reapresenta. Todo tempo distante será um pouco vazio. E que danada essa tal carência, que nem nos deixa ficar em paz sozinhos! Que nos tira a liberdade! Que faz o outro insistir na tal da nossa eterna responsabilidade por tê-lo cativado – “e eu lá queria cativar alguém??”

Mas ainda não sou marido, tampouco pai. Estou somente no começo de uma longa caminhada de vida, que pode dar em tanta coisa, pode dar em tudo, pode darem nada. Aindanão tenho a sublime responsabilidade de ser presente numa família criada por minha própria escolha. Mas já me sinto um pouco “preso por vontade”, servindo ao grande “vencedor”… Rendido ao sorriso bobo, à inocência que me tira a pompa da gravata e me lembra que posso, sim, voltar a ser criança se tiver maturidade para isso. Se souber ver aquele sorriso com meu olhar mais sincero, se adentrar aqueles olhinhos com todo o resto de pureza que ainda me sobra na alma, depois de tanta coça que a vida já me deu. Se conseguir ainda ter esperança, se acreditar em mim mesmo depois de achar que já não sou mais o mesmo…

Bentinho chamou de “desgraçado” o leitor que se enfastiasse ao ler sua narrativa do momento em que penteou Capitu. Como não sou Machado de Assis, serei mais modesto e pouparei o ainda mais moderno e apressado leitor desta crônica de maiores descrições e melosidades de minha pequena amada, sob pena de mergulhar ainda mais fundo nas armadilhas do ardiloso pieguismo, sempre à espreita dos apaixonados, esse safado. Somente concluirei que estou pensando seriamente em adotar uma nova postura ao atender executivos…

_ Tá com estresse, meu filho? Ouça o doutor. Se tem alguém que ama, peça para ela lhe avisar quando comprar uma jujuba.

São Paulo, 01.10.2012

sábado, 4 de agosto de 2012

(En)lutar



Há coisas que o cérebro humano simplesmente parece não ter a capacidade de assimilar. São os verdadeiros Mistérios, com “M” maiúsculo. E talvez sejam exatamente essas coisas que nos façam ser realmente “humanos”...

Em minhas reflexões de filósofo de botequim, cheguei a anotar algumas delas: uma pra cada dedo da mão. E ainda nomeei, olha que metido: RuahHeraErosThanatosNumen. Ou seja: a Vida, a Procriação, o Amor/paixão, a Morte e a Transcendência. Cada uma dessas coisas é capaz de nos deixar meio abobados quando nos encaram frente a frente, e esgotar nossa capacidade de explicar pros outros exatamente o que estamos sentindo. São coisas que não cabem em palavras, porque simplesmente parecemos não conseguir assimilar em sua totalidade. Parecem extrapolar nossa capacidade humana de entendimento...

Pergunte a alguém que acabou de ser pai, a um apaixonado, ou a quem afirma ter tido uma forte experiência religiosa/espiritual ou algo do tipo. Se você já passou por uma dessas coisas, tente se lembrar de como o corpo simplesmente muda o ritmo, a mente parece entrar em outra dimensão e, mesmo que você continue a fazer suas atividades de sempre, nada é mais como antes. Algo está diferente...

Pois, hoje, sinto algo assim. Me deparei com o mais louco desses mistérios... que é justamente o mais certeiro, a nossa única certeza. Aquilo pelo qual todos iremos passar, um dia....

Então me lembrei de um caso semelhante, ocorrido há alguns anos, quando a cachorrinha da família, um dos seres mais dóceis que já conheci, faleceu. Confesso que foi um tanto estranho sentir um pouco de indiferença no ar, com todos me tratando “normalmente” após eu dar a notícia, parecendo esquecer em poucos segundos o que eu acabara de anunciar. Talvez porque ainda não estava tão “na moda” sair berrando aos quatro cantos do Facebook que “bicho é igual gente”, as pessoas pareciam esquecer a dor que uma perda assim pode representar. Certamente não é como perder um pai ou uma mãe, mas também não é algo que se resolve com piadinhas pra deixar a pessoa “pra cima”. É, afinal, um luto... e deve ser respeitado como tal.

Na época, resolvi, então, escrever um pouco sobre isso e, por algum motivo maluco, botar na internet – começando assim essa mania de blog que não terminou até hoje. E aquele desabafo acabou virando um dos meus textos mais lidos – basta digitar “Minha cachorrinha morreu” no Google para achá-lo. Isso porque, descobri, não era só eu que me sentia quase solitário em meu luto: a todo instante pessoas perdem seus bichinhos queridos, e muitas vezes não têm nem com quem desabafar – não recebem um abraço sequer. Já pararam pra pensar nisso? Pois é algo muito sério. Cheguei a receber até comentários extremamente depressivos, frutos talvez dessa falta de amparo, da falta de um simples respeito ao contato de um ser humano com tal “Mistério”...

Pois, hoje, meu luto é por um pequeno ser humano. Tão pequeno que era do tamanho dum grãozinho, minúsculo como nenhum de nós consegue imaginar já ter sido – eis o Mistério da Vida. Pois Ruach mal tinha nos avisado de sua aparição e Thanatos já se fez presente... Ainda estávamos “abobados” pela primeira notícia, e agora temos de tentar assimilar a outra.

Felizmente não houve maiores complicações. Racionalmente falando, é algo relativamente “normal”, estatisticamente comum, “faz parte da natureza”. Para nós, humanos, no entanto, é mais do que isso. É um Mistério, com M maiúsculo. É simplesmente algo maior do que nós.

Por isso hoje, quando novamente tentavam me distrair com assuntos do cotidiano e meu riso, embora verdadeiro, quase se transformava instantaneamente em lágrimas pela inevitável fragilidade, fiquei pensando na dificuldade que temos em lidar com o luto do outro. Nunca sabemos o que dizer em funerais, fugimos de conversar sobre a morte, encurtamos ao máximo aqueles momentos que existem justamente pra ajudar a assimilarmos a perda – em alguns lugares já há até os inimagináveis “velórios fast-food”, rápidos como pedir um Big Mac. Nem é preciso mais sair do carro pra cumprimentar a família enlutada.

Não, não quero ser fúnebre, vestir preto e louvar o deus da morte com seu cabelão comprido. Deixa isso pra quem ainda não sabe nada da vida...

Estou falando do direito de podermos nos deparar com o tal Mistério, e sermos simplesmente respeitados por isso. De sofrer, sim, o que deve ser sofrido. Sem exageros, mas também sem máscaras. Sem fingir que entendemos tudo. Sem querer ser o que não somos...

Deixem, pois, Jesus chorar Lázaro. Mesmo que a alegria da ressurreição vença depois, há horas em que só as lágrimas nos fazem humanos. Só elas...

domingo, 6 de maio de 2012

Mineiro que vai à missa


Uma vez, num show do Jota Quest, ouvi uma música deles que me deixou intrigado por um detalhe interessante... Dizia um trecho dela: “e no domingo eu vou à missa, vou à feira, vou à praia e também ao futebol”... Seria só um verso da música (que simplesmente fala do cotidiano de um cara que conheceu uma garota) sem muita importância, mas fiquei pensando: “poxa, por que uma música de uma banda pop normal iria ter ‘missa’ no meio, assim, como algo corriqueiro onde todo mundo vai no domingo?” Aí me dei conta: trata-se de uma banda mineira. Tá explicado.

Nós, mineiros, temos fama de sermos “muito católicos”. Mas eu diria que talvez o mais certo seria dizer que nós somos “muitos católicos”. Percebe a diferença? É que, mesmo antes de vir morar no estado de São Paulo, percebi como aqui o catolicismo parece ser até mais forte que lá em Minas (não é à toa que o primeiro santo brasileiro é de terras paulistas!). A devoção a Nossa Senhora Aparecida aqui é impressionante, os movimentos leigos são intensos, há nada menos que quatro emissoras de TV católicas com abrangência nacional (via satélite), cada uma com sede em uma cidade do interior do estado – e todas devendo muito da sua organização e divulgação aos leigos. O catolicismo aqui é conservador, interfere diretamente na política, constrói grandes obras, enfim, faz barulho. Mas, aqui, não são “todos” católicos - como, em Minas, parece ser...

Explico-me. Lá, “ser católico” talvez não seja algo que faça tanto barulho, porque é como se todo mundo, com exceção dos evangélicos e ateus, fosse “meio” católico: até mesmo espíritas, umbandistas, agnósticos... Mesmo em cidades com ares meio “cosmopolitas” como Juiz de Fora, cheia de pensamentos “liberais” e “diversificados”, as missas estão sempre cheias – e não só de velhinhos, mas de jovens, casais de namorados... Quando morava lá, me surpreendi uma vez ao reconhecer na missa um professor, homossexual assumido e daqueles que adoram “descer a lenha” na Igreja Católica dentro da sala de aula – e ele estava em plena fila do ofertório pra depositar seu trocadinho na cestinha. Veja bem: ele não estava simplesmente na fila da comunhão pra “pegar seu sacramento e ganhar um pontinho a mais na hora de ir pro céu”, mas sim contribuindo financeiramente pra mesma instituição da qual, em outro momento, ele parecia ser o pior inimigo.

Incoerência? Hipocrisia? Ou simplesmente perpetuação de uma tradição que ele aprendeu e que, por suas crenças, acha importante levar adiante, mesmo com todas as ressalvas?... Difícil responder. O fato é que, lá, parece ser bem freqüente uma classificação de católico que não é nem o “totalmente ativo” e nem “não-praticante”; seria uma espécie de “católico semi-praticante”. Ele não fica só nas práticas “básicas” que o senso comum adota pra dizer-se “católico” (batismo, primeira comunhão, casamento, missa de sétimo dia), mas costuma ainda freqüentar a missa quase todo domingo. Pode não concordar com nada do que o padre diz, pode sair dali xingando o papa, ou mesmo estar meio alheio àquilo tudo, sem saber responder ao certo o que está fazendo ali. Mas ele vai à missa. E não tem vergonha disso...

Pois, quando me mudei pra “grande metrópole paulistana”, comecei a perceber a diferença. Aqui parece vigorar um pouco mais a cena que o filósofo Luiz Pondé descreve com bom humor no vídeo abaixo... (a partir do instante 22:36).


Ele faz piada, mas não deixa de ser interessante pensar nisso: parecemos estar adentrando um mundo em que novas formas de “fabricar sentido” (crenças orientais, psicanálise, meditação, vegetarianismo) são aceitas, mas as velhas não – mesmo que o “pouco” que as pessoas procurem nas “novas” (afinal, poucos são os que “mergulham” profundamente nos fundamentos delas) sejam coisas que podemos encontrar nas nossas “velhas” tradições de país cristão. Exemplifico. Uma amiga me disse que se interessa pelo budismo por ser uma religião que privilegia o “outro”, a caridade, “ao contrário do cristianismo”, em suas palavras. Achei estranho. Depois, relendo “O Anticristo” (uma das mais famosas críticas já feitas ao cristianismo), me lembrei que Nietzsche achava o budismo “menos pior” que a religião cristã exatamente porque, para ele, ter compaixão pelos outros era uma fraqueza – e, na sua visão, o budismo permitia um pouco mais de individualismo. Sei lá se Nietzsche já estava um tanto insano quando disse isso (já que O Anticristo foi um livro escrito ao fim de sua vida, quando talvez já podia estar demonstrando alguns sinais da loucura que o abateu), mas não deixa de ser interessante notar que o mesmo fator que o fazia odiar o cristianismo, hoje é o que algumas pessoas tanto dizem procurar em outras crenças: o amor ao próximo...

Pois às vezes tento entender porque essas pessoas, tantas vezes tão sinceras em suas procuras, têm tanta repulsa a uma religião que elas pensam conhecer tão bem – mas que parece ser tão diferente da que eu conheci, em minha “mineiridade”. Não que eu, muitas vezes, não compartilhe de suas mesmas críticas, questionamentos, revoltas – mas pra mim ainda é difícil entender como isso se torna verdadeira aversão – algumas vezes até ódio – à Igreja e até ao cristianismo em geral...

Pois bem. Na avenida principal da região onde moro aqui em Sampa, quase em frente à saída do metrô, há uma bela e grandiosa igreja, em estilo antigo – daquelas boas pra se entrar no meio do dia, admirar os vitrais, curtir um momento de silêncio em meio à correria da cidade, talvez fazer uma oração. E quando me mudei pra cá, vez ou outra passava por lá no horário da missa e entrava, como quem não quer nada, tentando fazer um exercício de observar aquilo como alguém “de fora”, que não é católico mas quer saber o que a Igreja tem a dizer. E, confesso, me disse muito pouco. Padres pouco preparados, ritmo maçante, sistema de som ruim... aí bastou ouvir um pouco de moralismo pro “crítico” dentro de mim se inquietar de vez. E imaginei que, pra alguém de fora, aquilo tudo, somado ao que muitas vezes se vê na mídia (católica ou não) sobre a Igreja, e ao tipo de proselitismo que agora parece ser moda entre os católicos nas redes sociais, realmente não daria uma visão muito boa disso tudo...

Mas depois, andando pelo bairro, descobri uma igreja numa pracinha bem agradável, pertinho da minha casa. Igreja nova, com cores vivas, estrutura mais simples. Voltei no domingo, na hora da missa. Notei que saí de lá um pouco mais “leve”. E acabei voltando no outro domingo... e no outro. Não há nada demais, não há danças, festa, muita alegria. Nem batuques regionais e reflexões sociais "planfetárias". Tampouco discursos empolgados, com palavras rebuscadas, apologéticas... Mas o padre, com voz serena, lê trechos daquele livro tão antigo e a partir daquilo fala de nossos pequenos medos, de ter coragem, transparência, de busca pela verdade. Lembra que não podemos nos acostumar com a corrupção, com a injustiça, e no fim presta contas de uma campanha que a comunidade fez em solidariedade a alguns que precisavam. Uma missa como tantas que já vi. Nada de extraordinário. Mas que, no mínimo, incita a uma pequena reflexão sobre o nosso “ordinário”...

É claro: pra quem é católico, a missa representa muito mais que isso; é um mistério grandioso, difícil de ser entendido “de fora”. Mas, sobretudo pra quem não é, fica a sugestão: ao buscar entender algo, não se contente com as aparências. Vá atrás daquilo que não faz alarde, mas que às vezes pode estar bem perto de você. Não tenha medo de ir fundo, buscar a essência. Dica de mineiro!...

quinta-feira, 1 de março de 2012

São Paulo e a gente

Estou há 1 mês e meio morando em São Paulo. Antes disso, fiquei 7 meses em Campinas, vindo à capital pelo menos uma vez por mês. Ou seja, já deu pra sentir um pouco a “pegada” dessa cidade louca. Uma cidade em que, quem diria, eu nunca imaginei que estaria morando. “Já é muita gente, não tem que ir ainda mais gente pra lá, tem é que sair...”, eu pensava. E de repente, pimba: virei um de milhares de migrantes que vem pra essa tal de “selva de pedra” por ano...

Realmente, em geral a primeira coisa que se pensa quando se fala em São Paulo, em qualquer lugar do Brasil, é “muita gente”. Outro dia vi uma placa no metrô que me chamou a atenção: era uma dessas mensagens educativas, dizia algo como “seja gentil ao dar passagem: o metrô é feito de milhões de gestos, milhões de pessoas”. Perceberam? Não dizia “milhares”, mas “milhões”! Só no meio de transporte que eu utilizo, passam 10 dígitos de cabocos por dia. É gente pra encher um país da Europa! Isso sem contar quem anda de trem, ônibus, carro, táxi, helicóptero... Pois é, até helicóptero. Não pra viajar, mas pra se deslocar entre dois pontos de uma mesma cidade... (se conto isso lá na roça do meu pai, logo escuto um “ó bobo! Inté licópitro? Benzadeus!...”).

Como não sou lá muito fã de tumultos, nem alguém que se sente, digamos, naturalmente à vontade com qualquer tipo de gente, a idéia de morar aqui me assustava, de início – como assuta muita gente. E, realmente, não é uma vida nada simples. Se você não tiver dinheiro suficiente pra ser passageiro de helicóptero e só freqüentar lugares cada vez mais “vips”, inevitavelmente vai ter que conviver com pessoas – que aqui, além de muitas, são bem diversas. Diversos sotaques, diversos “jeitos de ser”, diversas realidades... Não é uma cidade, é um país espremido num monte de concreto, de tanta gente diferente que se encontra aqui: gringos, nordestinos, japoneses, italianos, mineiros... até paulistas. Mas – e aí vem a parte interessante – é justamente isso que está fazendo cada vez mais o “susto” desse mineirinho aqui ir virando, aos poucos, um certo fascínio...

Pessoas são a coisa mais complicada desse mundo – palavra de alguém que foi louco o suficiente pra decidir estudá-las, escolhendo fazer Psicologia em meio a tantas opções... Mas pessoas também podem ser surpreendentes. Não estou trabalhando com psicoterapia, mas atendo num serviço de rastreamento de estresse com executivos de algumas grandes empresas – são 30 minutos de consulta com cada cliente, o suficiente para sair do trabalho, ao fim do dia, tendo ouvido todo tipo de história. Do impressionantemente arrogante “meus filhos são chatos, aliás como todo filho, toda criança, todo adolescente, né... mas eu já sabia disso, então já avisei minha mulher que seria assim, nunca peguei eles no colo, deixei pra lá. Mas tem que ter filho, você é jovenzinho mas um dia vai ver, ter filho é bom pra gente se sentir um pouco mais jovem, faz bem pra gente...” ao emocionante “eu acho que sou capaz de desempenhar um papel útil na minha vida, sim... mas às vezes queria poder fazer mais, sabe? É que eu tenho uma ONG, né... e eu vou pra lá, fico escutando a história das pessoas, elas contam coisas tão sofridas, me emociono com elas, choro com elas... e eu vou pra casa pensando: eu faço algo, mas queria fazer mais...”

Ambos são relatos de executivos, gente com certa importância dentro da mesma empresa, uma conhecida editora que proporciona a todos nós, brasileiros, aquelas revistas que vemos nas bancas, toda semana. É interessante pegar uma revista na espera do dentista e ficar imaginando quem são as pessoas por trás daquilo tudo, como vivem, como vêm o mundo à sua volta, como lidam com o estresse... Esses dois executivos que citei, por exemplo, não apresentaram nenhum sintoma de estresse ou qualquer problema psicológico, na nossa avaliação. O segundo, provavelmente, pela forma bonita como encara a vida; já o primeiro, talvez, por não deixar os problemas lhe atingirem, devolvendo-os com a devida arrogância a quem lhos apresenta.

Pois, pra chegar num endereço que valia uma fortuna no Banco Imobiliário e atender essa gente que apresenta problemas como “quando me aposentar, não sei se fico aqui ou vou morar na Suíça com minha filha”, pego três linhas de metrô e uma de trem. É uma viagem longa, mas relativamente confortável – algo que essa cidade parece, sim, ao menos “tentar” proporcionar... E hoje, em meio à correria de tentar fazer esse trajeto em tempo recorde (consegui em “apenas” uma hora!) por conta de uma mudança de planos de última hora, entro no trem lotado e ouço um som de pandeiro e o anúncio, com sotaque nordestino, de que começaria um “show”. Minha reação natural, como creio que de grande parte dos passageiros, foi pensar “poxa, lá vem mais uns chatos... bom é no metrô, que não tem isso”. Mas foi sensacional levar um belo “tapa de luva” de dois dos melhores repentistas que já vi, sem exagero. Rimavam com tudo, faziam piada com tudo – desde os jovens que não deixavam os assentos especiais pros idosos, ao rapaz que usava um tênis caro, da Nike, mas sem meia. “Filho de rico quando chora ganha passagem de avião, já o do pobre chora e ganha é um safanão”, cantavam de uma forma bem mais engraçada do que eu consigo me lembrar agora. Sempre “dando um intervalo” e escondendo o pandeiro nas paradas, pro guarda não pegar. Não havia, no vagão, quem não desse risada. “Muito bom ser desestressado dessa forma”, comentou um cara com o que estava ao lado. Antes de descer, fiz questão de sair de onde estava e ir lá deixar uns trocados no pandeiro. Mas ao desembarcar, logo me arrependi: podia ter contribuído com mais. O show valia.

São surpresas, situações dinâmicas como as que temos o tempo todo, por aqui. Em poucas semanas de São Paulo, já pude ver muita coisa. Conhecer várias pessoas, de uns fazer grandes amigos (mesmo!) e de outros nada restar. Reparar na gente educada que sempre cede passagem no metrô – mesmo com pressa – e nos motoristas que nunca, jamais, cedem passagem aos pedestres – mesmo nos fins de semana. Nos antenados, que andam de bicicleta e buscam formas sustentáveis e “espiritualmente evoluídas” de viver (geralmente flertando, de forma um tanto “light”, com religiões orientais e todo tipo de meditação) e nos conservadores clássicos, que fazem a polícia tratar o pobre e o diferente na base do cacetete, sem melindres. Descubro, a cada dia, que “muita gente” pode ser sinônimo de muito problema – ou de muita solução. Pode ser uma multidão de chatos, ou uma coleção de gente interessante. Uma selva onde todos competem a cada segundo para ver quem vai passar por cima do outro – ou uma grande comunidade onde todos tentam fazer a sua parte, sabendo que também dependem da parte do outro pra tudo funcionar um pouco melhor. Um emaranhado de concreto e asfalto, ou um arranjo inteligente de formas arquitetônicas cada vez mais belas, sabendo valorizar, quando possível, o que resta de natureza...

Pois vejo essas duas “São Paulo” o tempo todo, coexistindo lado a lado, em cada canto. O caos e a beleza, a zona e a ordem. Tudo junto e misturado. Como nas pessoas. Como na gente...

UPDATE - acabei de achar o vídeo acima, que mostra, em 3 minutos, tudo isso que tentei descrever dessa cidade louca. Muito bom, vale a pena uma olhada!

sábado, 29 de outubro de 2011

Só no mundo


Chamava-se Cristina e tinha 23 anos e uma história de marejar os olhos. Família de onze irmãos. Das treze pessoas sobraram ela e dois irmãos, um dos quais não via há cinco anos. O pai fora morar com outra depois de encher a mãe de filhos. Fez mais três na outra matriz. Morreu aos 50 anos de cirrose hepática, a mãe morreu de complicações no pulmão.

Um por um, os irmãos foram morrendo: Numa só noite dois irmãos foram esfaqueados; quatro deles em três anos por atropelamento, overdose, ataque epiléptico e doença que ela nem sabia dizer qual. Para resumir: ela e o Cristiano só tinham um ao outro. Ele com dezesseis anos, dependente dela. Queria uma ajuda porque Cristiano andava mexendo com maconha e ela não podia perdê-lo. O rapaz deu de não mais estudar nem trabalhar.

O dinheiro do aluguel mal dava para se manterem. Uma escola mudaria o Cristiano. Fiquei olhando aqueles olhos tristes e vermelhos de chorar, pelo único irmão que lhe sobrara. Indiquei um grupo católico que ajudava rapazes drogados. Conseguimos internação. Ontem fiquei sabendo que há 6 meses o rapaz morreu afogado em Santos.

Sobrou a Cristina. Veio me ver. Está envelhecida aos 27 anos.

Só no mundo e literalmente só. Pediu licença e fez-me uma pergunta:

- Deus quis tudo isso, padre?

Se eu fosse da linha fundamentalista, iria citar umas 20 frases da Bíblia, para dizer que Deus sabe o que faz e que isso tudo foi para o bem. Como minha fé não tem resposta para tudo , respondi:

- Gostaria de saber porquê, mas não sei. Gente como você, Cristina, faz a gente repensar o conceito de vida e de Deus. Agora você sofre. Daqui a 15 anos teremos outras respostas. E quem sabe você estará me explicando a dor da cruz.

Apertou-me, abraçou-me e disse:

_ Não lhe contei. Estou namorando e vamos nos casar no fim do ano. Reze por nós.

E eu…

_ Olha aí uma resposta!

26/11/2007

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Amor é um drama

"Não existe nada que, mais do que o amor, ocupe sobre a superfície da vida humana maior espaço, e nada existe que, mais que o amor, seja tão desconhecido e misterioso. A divergência entre o que se encontra na superfície e aquilo que é o mistério do amor – eis a fonte do drama. Esse é um dos maiores dramas da existência humana. A superfície do amor tem sua corrente própria, rápida, cintilante, susceptível de modificar-se. É um caleidoscópio de ondas e de situações cheios de fascínio. Essa corrente por vezes se torna tão vertiginosa que arrebata as pessoas, homens e mulheres. Convencidos de que alcançaram o sétimo céu do amor, nem sequer de leve o tocaram. São felizes por um instante, quando crêem ter chegado aos confins da existência, e terem arrancado todos os véus, sem qualquer resíduo. Sim. Na verdade, na outra margem não restou nada, depois do êxtase não ficou nada, não há mais nada. Não, não é possível terminar assim! Ouça-me, não é possível. O homem é um continuum, uma integridade e continuidade – portanto não pode permanecer um nada."

"A Loja do Ourives", teatro - fala do segundo ato.
Andrzej Jawien (pseudônimo de Karol Wojtyla, futuro João Paulo II) - 1960

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Vestido

_ Por que as mulheres se exibem tanto? Não, não estou falando de ficar bonita, se produzir... A beleza não precisa ter explicação, faz parte da vida; e o que é bonito é, sim, pra se mostrar – só não bote essa frase na boca de um cantor de axé ou de funk, por favor!

Ela sorriu. Ele continuou falando, inquieto.

_ A beleza de uma pessoa, seja interna, externa ou tudo isso junto, deixa qualquer ambiente melhor... Mas por que raios as mulheres não conseguem diferenciar beleza de sensualidade? Sim, veja só. Um belo decote, um vestido leve, um cabelo milimetricamente cuidado... tudo isso pode parecer não ter “nada demais”, mas em certas mulheres é mais sedutor do que se estivessem nuas. Aliás, a nudez completa, gratuita, nem é tão sensual assim. Tem mulher que, com um belo vestido, deixa qualquer homem mais excitado que muita Playboy da vida. Aí me lembro de uns religiosos fanáticos que dizem que as mulheres só podem usar vestido, porque calça seria “muito sensual”. Não sabem nada de sensualidade...

A sensualidade está na pessoa, o que ela veste só reflete isso. Tem umas que até tentam, mas não têm jeito pra coisa: quanto mais sensuais procuram ser, mais vulgares ficam. O máximo que conseguem é transmitir ao homem a mensagem: “sou fácil, vem logo se tiver coragem”. Outras, não: sabem exatamente como seduzir. Há mulheres que simplesmente exalam sensualidade por onde passam.

E isso não é sempre bom, sabia? Sério! Às vezes desconcerta a gente. É engraçado, pois parece que no fundo tudo o que nós, homens, queremos é sexo. É ficar louco por uma mulher. É não resistir quando ela olha e nos deixa bambos, sem ação. Não vou negar que essa sensação é boa, mas tem limite. É complicado, por exemplo, num ambiente de trabalho, quando você tem que levar as coisas a sério e uma mulher tenta te seduzir pra levar vantagem em algo, fazer você pensar menos antes de agir. Quantos casos eu conheço de homens que deram grandes mancadas na vida por causa de uma mulher sedutora...

É claro, o oposto também é verdade. Tem muito homem conquistador que deixa qualquer mulher na mão, quando quer. Mas o meu ponto é: as mulheres, muitas vezes, fazem isso sem perceber. Elas acham que estão só ficando bonitas, “bem apresentáveis”, mas não: estão se vestindo pra seduzir. É inconsciente. Acham que estão sendo simpáticas, mas não: estão mostrando seu poder de conquista. É claro, se lhe perguntam, coram e juram que não tem nada a ver, é só seu jeito de ser... Nem elas sabem o que fazem. Acham que estão se produzindo para “outras mulheres”, com aquele papo de que homem no fundo não sabe apreciar tanto a beleza feminina... Bobagem. Não há tantas lésbicas no mundo. O que elas querem, no fundo, é competir com as outras. Querem intimidar a concorrência. E pra que tanta competição? Ora, só pode ser pelo macho. Acho que entre os mamíferos, o ser humano é o único animal em que as fêmeas gostam mais de competir pelo macho que vice-versa. Fala que é mentira!

Ela riu.

_ Ok, basta beber um pouquinho que já falo demais... Mas tudo bem, o que eu penso é isso aí mesmo, minha consciência está perfeita... Digamos que só estou um pouco mais falante, com coragem de botar tudo pra fora...

_ Achei interessante.

_ Sério? Não vai me trucidar? Chamar as feministas?...

_ Não... só gostaria...

Pausa.

_ De lhe fazer uma pergunta.

Ele mudou a posição na cadeira, atento. Os olhos dela, até então baixos, se viraram pra os dele.

_ E comigo? Você acha que é assim também? Que estou sempre seduzindo, sem perceber?... Seja sincero!

Ele sorriu, fez um gesto, parou, pensou. Botou a mão no queixo, olhou pra cima, enquanto ela sorria, discretamente. Fez menção de falar algo, sorriu, ela retribuiu. Por fim, falou.

_ Não sei...

_ “Não sei”... isso não seria uma resposta tipicamente feminina?

_ Está querendo me enrolar, moça? – riram. – Ok... Mas falando sério... Acho que não, você não parece ser assim. Taí: acho que você é uma exceção à regra.

_ Nem inconscientemente?

_ Ao menos não demonstra.

_ Hum... quer dizer então que não sou sensual?

_ Não é isso. Digamos que você não esbanja seu charme, seu poder de conquista. Hum... talvez você seja uma daquelas pessoas que compartilham sua beleza com o mundo, sabem deixá-lo mais belo com seu sorriso, mas guardam seu jogo, sua sedução, para a hora que realmente importa. Não brincam com os homens ao redor, não jogam pérolas para os porcos.

_ Uau! Então eu sou tudo isso?

_ Creio que sim.

_ Então sou uma peça valorizada. Feliz o homem que merecer minha sedução...

_ Será um escolhido entre mil.

_ Nem tanto. Não conheço tanta gente assim.

_ Pois então trate de conhecer.

_ Não preciso.

_ Por quê?

Os olhos, que oscilavam para os lados, mergulharam nos dele.

_ Estou de vestido. Não percebeu?...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Demônios


_ Então vou te contar a minha história, irmão. Presta atenção. Eu era um jovem normal, trabalhava, queria fazer faculdade, olha que desgraça! Eu era tranquilo, um cara que todo mundo gostava. Mas aí eu conheci o demônio, cara. O demônio em forma de pessoa. Uma menina que era um anjo no começo, quando a gente se conheceu. Era tudo maravilhoso, ela era sensacional, linda, um amor de pessoa... Durante um tempo foi tudo muito bom. Eu só queria fazer de tudo pra ela, mas ela tinha que corresponder, pô, tinha que ser só minha, tá ligado? Onde já se viu? E ela começou a fazer muito nhem-nhem-nhem, aquilo foi me irritando, eu tentei mostrar pra ela como as coisas são, ela era muito novinha, tinha que entender. Mas ela era teimosa, aquela praga. Menina mimada. Mas eu gostava dela, cara, eu amava ela como nunca amei ninguém nessa vida. E queria o melhor pra ela, queria que ela entendesse como eu amava ela, como eu queria ela junto de mim, que fazia aquilo tudo por amor, pô! Mas aí as coisas foram acontecendo, e quando eu dei por mim ela já não era mais o anjo da minha vida, era o demônio. Eu amava o demônio. Minha vida ficou um inferno. Eu não sabia mais o que fazer, cara. Não sabia mais como viver sem ela, não existia essa possibilidade. Ela me conquistou, aquela filha da... Com o perdão da expressão, irmão. Mas ela fez porque quis, eu não forcei nada. Ela me seduziu, e conseguiu me deixar fraco e sem chão como eu nunca fui na vida, o que eu sentia era amor de verdade, se é que isso existe, cara. E ela fez de propósito. Queria me conquistar, me fisgou que nem lambari no anzol, e depois quando a coisa ficou complicada queria me largar sem mais nem menos, dizia que a culpa era minha. Ah, irmão... veja só, não tinha como, não existia essa possibilidade. A gente era um do outro, pra mim só existia ela, e sei que ela gostava de mim também, pô. Mulher é um bicho estranho, parece que não pensa. Ou pensa, e faz as coisas de propósito só pra irritar a gente. E ela conseguiu, viu cara? Fez tanto charme, que conseguiu me deixar louco, nervoso, maluco com uma intensidade que eu nunca fui. Quanto mais eu brigava com ela, falava pra ela parar com aquilo, mais ela me infernizava. Me esnobava, dava bola pra outro na minha frente. Ela queria me deixar completamente pirado, e conseguiu. Chegou num momento que eu não tive escolha, irmão. Tinha que acabar com aquilo tudo. Eu tava maluco, tava sem vida. E tinha que acabar com aquele demônio que me deixou assim, não via mais jeito. Planejei tudo, avisei ela, dei chance, mas aí é que ela me xingou mais ainda, fez o diabo, disse que ia na polícia. Mas eu sabia que ela não ia, só queria me infernizar. Aí fui no apartamento dela numa hora que ela tava sozinha, ela atendeu, chutei a porta, fui direto pegar a arma que eu sabia onde o pai dela escondia, e falei que pronto, tava na hora de acabar tudo. Que aquilo era por tudo o que ela já tinha feito comigo. Era o destino, não tinha jeito. Eu nunca tinha pegado numa arma na minha vida, cara, mas naquela hora parecia que eu sabia exatamente o que devia fazer. Era como se só houvesse aquela alternativa, estava tudo escrito. Ela chorou, eu falei que não adiantava mais, ela falou que voltava pra mim, mas eu falei que sabia que era mentira, que ela tava falando só pra não morrer. Eu falei que não ia matar ela, porque morto não mata, e eu já tava morto por dentro. Eu ia só ia levar ela pra onde ela deveria ir, pro lugar dela. Nem sei por que eu falei aquilo, eu tava transtornado... Aí eu fiz o serviço. Só queria acabar com a vida dela, e fiz isso. Não sabia o que viria depois, mas na hora senti o que devia ser feito. Quando eu vi o corpo dela caído ali, cara, aquele corpinho que eu amava tanto, eu sabia o que era pra fazer depois. Minha vida já estava acabada, era só apontar pra testa e terminar o serviço. Não senti nem medo, remorso, nada: era como se tudo já tivesse escrito. Mas aí chegou um mané, um sem noção que quis dar uma de herói, se jogou em cima de mim, quase morreu também o idiota, mas ele era mais forte, conseguiu atrapalhar tudo. E eu vim parar aqui. Nem tenho esperança de sair. Pra quê? Não tenho mais vida lá fora. Nem quero ter. Eu devia é estar junto com ela no inferno... Agora sou um zumbi, sem vida, nem nada. Não era pra eu estar aqui. Aliás, nem era pra minha vida ter acabado. Eu era um cara normal, se você viesse falar de Jesus pra mim naquela época, eu ia te ouvir sem problema, eu gostava de ouvir. Mas foi culpa do demônio. Daquele demônio. Mulher não é coisa de Deus, irmão. Não é não....

_ Mas... e se fosse a sua filha?

As expressões foram mudando, até ele entender a profundidade da pergunta. Demorou alguns segundos para responder.

_ Se fosse minha filha... eu ia acabar com a raça do desgraçado que fizesse isso com ela.

_ Então ela não seria um demônio...

_ Não, se fosse minha filha tenho certeza de que ela seria um amor de pessoa, um anjo. O demônio ia ser o filha da puta que ousasse encostar a mão nela...

Silêncio.

- Quer saber, irmão? O Demônio tá é dentro de cada um. De todo mundo. Ele tá só esperando a deixa dele pra tomar conta da gente. É só a gente deixar...

_ Mas Deus também está.

_ Pode ser, irmão. Pode ser...